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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Cidade dos Nephilins - Capítulo 1

1 – Fugir

Perdida.
Acabada.
Destruída.
Eu seria uma rainha, fiz uma promessa e fui vítima de meus próprios erros.
Não nasci de um deus nem de um demônio. Sou filha de um arcanjo caído, preso nesse mundo entre o céu e o inferno.
Estava sem esperanças, sendo perseguida por destruir vidas, tirando seu sangue e provocando dor. Muita dor!
Tentei fazer tudo certo. Não foi bem o que aconteceu. Desviei-me em algum lugar no meio dos sonhos. Mas, um dia, de algum jeito, consertaria meus erros. No momento, precisava fugir, alcançar o lugar que seria meu refúgio, a Cidade dos Nephilins.
Não faltava muito, porém, estava tão destruída que cada passo que dava parecia sem direção, um esforço inútil.
Cheguei a um ponto em que já não sabia se acreditava mais nas coisas que meu pai dissera. Tudo o que me aconteceu provocou essa dúvida. Mas eu estava lá... Precisava continuar, por alguém que amava, eu tinha que seguir. Ele morreu para que eu pudesse nascer. Sim, eu continuaria, em honra a sua memória, daria um sentido à minha existência.
Faltava pouco para o sol nascer e já avistava os portões da cidade. Meu pai não mentiu, ela existia! Então, tudo poderia mudar, tudo poderia ser diferente.
— Alto, Lienne! Pare onde está.
Virei para encará-lo.
— Pode me dizer o que foi que eu fiz agora? – resmunguei como criança impaciente.
— Eu disse que não seria fácil – respondeu, abrindo suas grandes asas negras.
— Mas eu cheguei! – protestei firme.
— Não é disso que estou falando.
Ignorei-o e dei um passo na direção do imenso portão. Rapidamente, ele se colocou diante de mim, impedindo minha passagem. Parei. Não ousaria enfrentá-lo em uma luta, eu estava fraca e ele sempre foi muito maior em poder.
— O sol já vai nascer, pai. Eu vou morrer, deixe-me passar – implorei em murmúrio.
— Morrerá de qualquer jeito – meu pai respondeu de maneira casual.
— Então, por que me mandou para cá?
— Diga-me, Lienne, por que deseja entrar na Cidade dos Nephilins? Para fugir de tudo? Para salvar sua vida daqueles que te perseguem?
— Para salvar minha vida... de certa forma. – A expressão no rosto de meu pai mostrava que ele não gostara da minha resposta. Precisei consertar. – Pai, eu sinto falta da vida, das cores do mundo, da luz do dia. Nem sei como cheguei nessa situação, não sei por que tenho que viver longe do sol. Cansei da escuridão. Passei por cima de tudo e, mesmo assim, fui derrotada. Chega de noites em minha vida!
Ele sorriu. Eu o convenci.
— Não será fácil lá dentro – falou, apontando para a cidade. – Entretanto, aprenderá a lutar, ganhará força, poder. Será como eu quando sair... Se conseguir sair.
— Mas eu vou ficar bem, não vou? – indaguei, mordendo os lábios.
— Você é forte. Só que eles são muito mais. Seus instrutores não facilitarão, mesmo que tenha que levar sua coragem até as últimas consequências. E quando parecer que é o seu fim, não ouse desistir de lutar, ou morrerá.
— Virá me visitar de vez em quando?
— No momento de encarar a tempestade, quando suas esperanças acabarem, é quando estarei aqui – sibilou, com o esboço de um sorriso estampado nos lábios, ternura contida nos olhos e os dedos hesitantes acariciando meu rosto com toques suaves. – Não perca a esperança, minha filha.
— Tão ruim assim?
— Demais...
Isso me assustou. E muito! Mas a luta que tinha do lado de fora daqueles portões eram maiores. Ou assim eu pensava.
— Eles te esperam, Lienne – avisou-me o genitor alado.
Sim, eles me esperavam. Meu pai já os tinha avisado e eu sentia o chamado. Dei mais dois passos em direção a Cidade dos Nephilins.
— Espere, Lienne – ordenou novamente. Virei furiosa e ele continuou: - Para entrar aí é preciso esquecer. Tem que esquecer-se de tudo, arrepender-se. Morrer.
— Já morri uma vez – respondi, por entre os dentes, ao lembrar-me de como tudo começou.
— Essa é a condição.
— Não fiz nada de que pudesse me arrepender, e posso morrer quantas vezes forem necessárias, jamais esquecerei o que fizeram comigo! – rebati, com ódio latente, mantendo os punhos cerrados.
— Minha filha, esse teu fogo, esse teu desejo de vingança, pode ser o instrumento que vai cavar seu túmulo – vociferou irado. – Deixe a vingança nas mãos de Deus!
— Deus? – Dei alguns passos e tentei encará-lo, o que foi inútil, o alado era muito mais alto que eu. - Onde está seu Deus agora? Cadê o seu Deus, papai? – indaguei, com os braços abertos e olhando em volta, um típico deboche teatral. – Diga-me, onde está Deus? Expulsando mais anjos do Paraíso?
Eu o magoei.
Essas palavras o deixaram estupefato, de boca aberta.
— Morra, Lienne.

Ele tocou minha fronte e eu morri.

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