Entrada

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Exodus - Capítulo 1


1 – Odiando

O tempo não passava longe dele, era como perder a importância de viver, era como não ter forças... E ele disse que estaria ao meu lado quando eu perdesse minhas esperanças.
“Onde você está agora? Perdi tudo”.
Deserto inóspito e sem vida, uma longa caminhada até o verdadeiro destino. Sem ele, nunca chegaria, o tempo não passava.
Nunca me importei com nada, jamais dei o devido valor aos sentimentos alheios, até que o conheci.
“Por que me deixou sozinha? Eu te amo”.
Um caminho sombrio... Não o acharia tão triste se eu não amasse. Tudo era melhor antes, porque nada doía. A traição era apenas um ódio a mais, e a falsidade era somente um sentimento vil. As mentiras, os enganos... Tudo era só uma fantasia. Amar era pior.
Carreguei comigo a prova de que um dia fui feliz. Por um breve momento, senti algo bom dentro de mim. Foi como um sonho.
E, agora, caminhando pela noite gelada do deserto, tentando encontrar o caminho de um lugar que pensei ser a minha casa, com o coração partido pelas feridas deixadas para trás e o corpo deformado com asas grandes que nem imaginava como funcionavam, entendi o quanto estava errada. Meu único e verdadeiro lar sempre foi o meu próprio coração. E esse lar estava maculado. Sobrou apenas um turbilhão de destroços. Estilhaços de uma vida corrompida.
A partida era sempre mais difícil. Ela trazia lembranças. E meu rosto tomou outra forma. A tristeza partiu. O ódio tomou conta.
Avistei a cidade.
Já estava nela.
Escalei uma imensa construção gótica, com os gárgulas - figuras que me lembravam Adramalech -, por companhia.
— O que te aguarda, novo mundo? Esqueceram que não morri? Esqueceram-se da minha volta?
Sim, eles esqueceram. Transformaram-me em um nada. Mereciam sofrer. Não estava ali para salvar, essa nunca foi minha intenção. Eu só queria vingança, e meu mundo era melhor assim, pois eu não sofria, só odiava.
De volta ao mesmo mundo.
De volta ao cruel lar dos humanos.
E a raça mais desprezada estava mais que disposta a lhes mostrar seu valor. Uma nephilin transformada em anjo voltava para atormentar muito mais que seus demônios. Em seus sonhos mais cruéis me encontrariam. Foram eles que me mostraram o caminho. Nenhum demônio matava seu irmão. Nenhum demônio jamais me traiu. Quanto aos humanos... Falsidade... Ganharam tudo o que queriam e, quando não precisaram mais de mim, descartaram a pior da prole dos anjos.
— Vivam, enquanto podem, nessa doce ilusão de que tudo está bem. Vivam seus sonhos, pois estão prestes a caírem.
Por onde começar?
Estranhamente eu conhecia o caminho do inferno.
Cumprir minha promessa, eis o objetivo.
Seguiria o intuito que me levava ao ódio.
— Pare, Lienne.
Virei e o encarei. Um déjà vu.
— Não se cansa de dizer sempre a mesma frase? – rebati.
— O que pretende fazer?
— Não sei. – Dei de ombros. – Saltar daqui. Espatifar-me no concreto. Não morrerei mesmo.
— Anjos sentem dor – alertou-me.
— Foi você quem me ensinou que ferir outro lugar desvia a atenção da dor principal. Meu coração lateja demais. É forte... e triste.
— Acha que ele não sente o mesmo? Acredite em mim, querida, sei tanto quanto você o tamanho da dor do amor.
— A dor de perder um grande amor, pai. O senhor a perdeu para a morte. Eu o perdi para a vida. Como me conformar com o destino, sabendo que ele existe e jamais poderá me pertencer?
— O ama tanto assim, minha filha?
— Mais que a minha vida, pai...
Anjos choram.
Eu chorei.
— Se o ama, ainda há salvação para você. Olhe – meu pai apontou para baixo, onde um humano estava sendo covardemente espancado por outros dois –, é a sua chance. Salve-o.
— Não! – respondi firme.
Os olhos de Caleb faiscavam indignados.
— Como não?
— Se tenho que curar minha dor com outra, que eu pule por vontade própria, e não para salvá-lo. Ganhei asas, mas não aprendi a voar.
— Salve-o, Lienne – ordenou Caleb.
— Não!
— O deixará morrer?
— Não foi o que fizeram comigo? Não desejaram que eu morresse numa fogueira inquisitiva? Eu não me importo com os humanos. São um monte de nada – resmunguei por entre os dentes.
Meu pai me fitou incrédulo por alguns segundos. Depois, em um elegante voo, rasando até o concreto, livrou o humano, colocando-o em lugar seguro.
E o arcanjo voltou para sua cria.
— Já te mostrei como fazer – declarou. – A decisão é sua. Mas prefiro te ver morta que ao lado de Apollyon.
— Me ver morta, papai? – Levantei as sobrancelhas em um fingido sobressalto. – Quem não é capaz de amar, os anjos ou os nephilins?
— Morra, Lienne.
Caleb me empurrou contra a mureta de segurança daquele telhado, fazendo com que eu me desequilibrasse e caísse de uma imensa altura.
Olhos fechados. Sentindo a gravidade me levar ao chão.
Dois membros movimentaram-se.
Nada podia me deter.
Eu voltei... Sorrindo. Eu tinha asas... E podia voar.
O rosto espantado de Caleb era como um prêmio a mim.
— Ainda se surpreenderá muito comigo, meu pai.
— Não pode ser – ele falava assustado, com a voz embargada.
O sorriso da vitória era sempre o melhor.

— Apenas aceite, pai, apenas aceite...
Comentarios Facebook { }
Comentarios Blogger { 0 }

Postar um comentário